Dois anúncios circularam esta semana nos sites franceses. O primeiro: a imitação numa única tentativa seria agora possível para um robô humanoide. O segundo: os cirurgiões já estariam a começar a ser substituídos por robôs humanoides. Ambos assentam em trabalhos reais, publicados, sérios. E em ambos os casos, o título afirma exatamente aquilo que o artigo se abstém de afirmar.

A Nature escreve «teleoperado», o título escreve «substituídos»

A 8 de julho, a Nature publicou o primeiro estudo de viabilidade in vivo de robôs humanoides em cirurgia, conduzido conjuntamente pela escola de engenharia e pela escola de medicina da Universidade da Califórnia em San Diego. Duas remoções de vesícula biliar em grandes mamíferos não primatas: a primeira por uma equipa humano-robô, a segunda por dois humanoides a trabalhar lado a lado. As máquinas, apelidadas de Surgie, medem cerca de 1,50 m e pesam 27 kg, e manipulam instrumentos laparoscópicos padrão, o que lhes permite caber num bloco operatório exíguo sem obras dispendiosas. São integralmente pilotadas por cirurgiões humanos. O estudo não reivindica qualquer autonomia cirúrgica, e o objetivo assumido pela equipa é um assistente autónomo a trabalhar ao lado dos profissionais de saúde, não a sua substituição. Os robôs tiveram de ser recalibrados várias vezes durante a intervenção, e as duas operações demoraram nitidamente mais tempo do que com um sistema especializado existente. Já o título francês mais partilhado anunciava que os cirurgiões estavam já a começar a ser substituídos. O robô cirurgião é pilotado por um cirurgião.

A imitação numa única tentativa existe — em braços

Mesma semana, mesma mecânica. A 16 de julho, uma equipa da NVIDIA, de Stanford e da Universidade do Texas em Austin submetia o RoboTTT, que integra o treino no momento do teste num modelo de fundação robótico. Os números são espetaculares e verificáveis: um contexto visuomotor elevado a 8 000 passos de tempo, ou seja cerca de três ordens de grandeza para além do estado da arte, 87 % de melhoria face a uma política de passo único, taxas de conclusão de 79 %, 78 % e 71 % em três tarefas reais, e uma montagem em dez etapas que pode durar cinco minutos. A imitação numa única tentativa a partir de uma simples demonstração em vídeo existe, portanto, mesmo. Só que nem o resumo do arXiv nem a página do projeto empregam a palavra «humanoide»: o que é avaliado é uma montagem de manipuladores bimanuais. Quanto ao artigo francês que veiculou a informação, não nomeia o estudo, nem o laboratório, nem o robô, não cita um único número e não remete para qualquer publicação.

Como se parece um número que ninguém enfeitou

Para medir a diferença, basta ler, na mesma semana, o balanço que a Xinhua dedica aos humanoides nas oficinas chinesas. Um robô G2 da PIABOT Robotics faz baixar um tempo de ciclo numa linha automóvel de 18 para 12,9 segundos, ou seja cerca de um terço de eficiência ganha. Os robôs da Aitu separam peças de tecido com 97 % de sucesso, e mais de 98 % do trabalho de costura daí decorrente passa o controlo de qualidade. Um centro de treino aberto em Cixi em meados de maio alinha quarenta robôs e visa mais de noventa horas de treino efetivo por dia. Nenhum destes números faz um título. Todos se verificam.

Na semana passada, a Walden Robotics levantava 300 milhões de dólares com um comunicado que não escrevia uma única vez a palavra «humanoide» — a imprensa acrescentou-a. Três casos, três vezes o mesmo gesto: o que falta ao artigo é fornecido pelo título. As duas distorções não são, porém, da mesma natureza, e a distinção merece ser tida em conta. Num caso inventa-se uma morfologia: um braço torna-se um homem. No outro inventa-se uma autonomia: um robô pilotado torna-se um robô que decide. A segunda é a mais dispendiosa, porque incide sobre a única questão que verdadeiramente conta quando uma máquina segura um instrumento dentro de um abdómen — quem, exatamente, está a executar o gesto. O leitor não precisa que lhe vendam um cirurgião artificial. Precisa de saber que um humanoide teleoperado acaba de retirar uma vesícula biliar, e que isso já é considerável.